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O que não se conquistou com o 1º de Maio

Os denominados “Mártires de Chicago”,oito trabalhadores americanos que, em 1886, iniciaram a luta que daria origem ao dia do trabalhador, exigiam a redução do horário de trabalho de 12/14 horas para 8 horas diárias e o fim do trabalho infantil, entre outros direitos hoje tidos como básicos.

O que pensariam estes operários se aterrassem no Portugal de 2019, acompanhassem uma criança de sete anos?

Ela entra na sala de aula às 9h, sai para almoçar às 12h, com um intervalo de 30 minutos pelo meio, onde tem que encaixar, com muito engenho e arte, o lanche da manhã, a casa de banho e um bocadinho de brincadeira; que lhe permita ouvir e integrar os conteúdos que vão ser tratados de seguida.

Regressa às 13h e termina às 15h. Termina é uma maneira de dizer, porque após mais um breve intervalo, onde têm que caber, mais uma vez, a satisfação das necessidades lúdicas e fisiológicas, tem duas horas das chamadas AEC’s (Atividades de Enriquecimento Curricular), que, no essencial, representam mais do mesmo.

Quando a energia e a capacidade de concentração são poucas ou nenhumas ainda surgem os famigerados trabalhos de casa que consomem mais, vamos dizer, uma hora, ao ser criança. Finalmente ainda haverá uma aula de música, ou de inglês, um treino de judo ou de natação.

Feitas as contas, esta criança trabalhou nove horas neste dia, nove horas em que não teve oportunidade de escolha, nove horas em que não contactou com o ar livre, nove horas em que não experimentou o ócio, nove horas em que a atividade não foi realizada por vontade própria, nove horas em que a atividade lúdica foi nula. Nove horas em que a infância ficou adiada.O que diriam os “Mártires de Chicago” se presenciassem esta realidade?

1º de maio

Estamos tão preocupados com os direitos dos trabalhadores, mas os adultos já têm instituídas as 40 horas de trabalho semanal.

“Brincar é um assunto sério.” A frase é do investigador Rui Mendes, professor da Escola Superior de Educação de Coimbra que realizou um estudo sobre como brincam as crianças portuguesas.

Foram inquiridas 1466 famílias de todo o território nacional, com crianças entre um e dez anos de idade, sendo a média de cinco anos.

O estudo conclui que a maioria das crianças das famílias inquiridas brincam duas a três horas e maioritariamente em contexto escolar, o que significa sem a presença dos adultos referência (pais ou avós).

“Quando estamos a pedir a uma criança para entrar na escola às 9h, ter um primeiro intervalo às 11h, ter meia hora livre – em que tem de comer, ir à casa de banho e talvez brincar – e voltar a um registo de trabalho até à uma, estamos a pôr a criança a trabalhar como se estivesse numa linha de produção de uma empresa em que não se pode parar. Isto contribui muito para a aprendizagem da criança? Provavelmente não.”- afirma o investigador.

1º de maio

Ainda segundo o professor Rui Mendes, o tempo de atenção, a capacidade de aprender e, consequentemente, o rendimento académico estão intimamente associados ao tempo que a criança tem para brincar.

A brincadeira é um espaço de aprendizagem livre, onde se adquirem competências básicas, indispensáveis à apropriação de conteúdos cognitivos.

É no ato lúdico que a criança desenvolve o pensamento crítico e criativo, as suas capacidades motoras, a acuidade emocional e capacidade de interação e socialização.

Para que a criança possa brincar, o investigador aponta dois requisitos: o silêncio e o tempo livre. Se continuamos a assoberbar as crianças com atividades e obrigações privamo-las de um direito básico que até os adultos já têm que é a atividade lúdica, comprometendo assim a sua formação.

Manifestemo-nos a favor dos trabalhadores infantis!!!

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