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“Quando nunca a infância teve infância, o que faz falta”

Quando Zeca Afonso nos canta, num dos versos de uma velha canção de intervenção, “Quando nunca a infância teve infância, o que faz falta”, ou quando Soeiro Pereira Gomes nos escreve sobre os “filhos dos homens que nunca foram meninos”, a nossa memória devolve-nos imagens de crianças sem tempo para serem crianças, trabalhando desde cedo em trabalhos duros, sem tempo para brincadeiras, sem risos, desperdiçando o melhor tempo das suas vidas, o tempo em que não há impossíveis, em que tudo se pode experimentar (e falhar), o tempo em que podem ser criativos em que podem formar o seu caráter, em liberdade.

Abril ajudou a que essas imagens de meninos trabalhadores fizessem parte do passado, pelo menos em grande parte do nosso país. Mas terá acabado com o tempo dos meninos que não podem ser meninos, que não têm tempo nem oportunidade para caírem e levantarem-se sozinhos, para falharem e tentarem de novo, falhando cada vez melhor?

Terão os nossos meninos a liberdade para serem eles próprios, sem formatações absurdas, sem pressão para serem iguais a todos os outros meninos-modelo, talvez também eles querendo ser apenas meninos com tempo para serem meninos, terão o apoio necessário para crescerem na diferença, para aproveitarem esse tempo mágico onde podem apenas ser crianças?

Será que hoje as crianças têm mais liberdade para brincarem do que nos primeiros anos da década de 70? Será que têm mais espaço para usarem a sua imaginação do que durante o Estado Novo? Será que têm mais espaço de pensamento e intervenção do que no tempo em que o professor dava aulas em cima de um estrado e debitava o seu superior saber? Será que hoje as crianças têm mais oportunidades para tomar as suas decisões e fazer as suas escolhas do que perante os pais autoritários e déspotas?

A sobrecarga de trabalho dentro e fora do seio familiar felizmente faz parte do passado mas será que não deu lugar a outra sobrecarga de atividades dentro e fora do seio familiar (particularmente fora)? De atividades escolares, desportivas, culturais e sociais que pretendem construir um menino-prodígio, mas que perpetua o estado de coisas em que a infância não tem infância?

Para proteger a doutrina e a ideologia do Estado Novo e defender “a moral e os bons costumes”, o regime cortou a liberdade de expressão aos portugueses. Com o intuito de proteger a “segurança” das crianças, garantir a tranquilidade dos pais e promover a formação de cidadãos sabedores (mas emocionalmente muito pouco hábeis), será que a sociedade não cortou a liberdade de ser criança?

Façamos uma nova revolução, também ela pacífica, e devolvamos a infância e a liberdade às nossas crianças: a liberdade de desenvolver o pensamento crítico, a liberdade de criar, a liberdade para gerir autonomamente parte do seu tempo, a liberdade de fazer escolhas e tomar decisões, a liberdade de frustrar, a liberdade de arriscar, a liberdade de experimentar a dor.

45 anos depois da revolução dos cravos é tão atual a necessidade de uma revolução que devolva a infância às crianças, que lhes devolva a liberdade!

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